Explicação Gramatical: (nós quem?)
Para entender essa nova língua falada pelos #webcidadãos é imprescindível uma explicação, ao menos. A primeira pessoa do plural aqui apresentada não é o do governo e os governantes, partidos que são e, portanto, inevitavelmente atrelados ao singular – mesmo que em um grupo grande. Não se trata tampouco de uma classe de “privilegiados” que pretendem ser novas espécies de representantes. O nós aqui assume sua plenitude, buscando um grau de pertencimento que reconquiste nosso país. #étudonosso

TEXTO 1:

Teoria elitista da democracia

A teoria
Pela teoria elitista da democracia o ápice democrático está na competição eleitoral. Segundo esse pensamento, as pessoas não demonstram grande interesse ou rendimento intelectual quando o assunto é o interesse público: Mesmo um grande profissional, seja da medicina ou da advocacia, quando passa a discutir problemas relacionados à sociedade, se transforma numa pessoa medíocre. Para eles, essa é a razão de existirem os políticos profissionais, pois assim poderão, através da propaganda eleitoral, resgatar e objetivar esses sentimentos latentes e mal definidos da cabeça da população, forçando-os a um posicionamento entre os candidatos e partidos em disputa. Para Joseph Schumpeter, um dos autores dessa corrente, as ideologias e programas dos partidos não são importantes. Sua essência está em se colocarem como símbolos e marcas na disputa, legitimando o processo de ocupação dos cargos políticos num sistema democrático desse tipo.
Por que parce verdade
Esse tipo de teoria encontra eco em nossa sociedade por diversos motivos. Primeiro os baixos índices de participação da população na política institucional, que pouco ocupam os parcos canais disponíveis para esse exercício, como as audiências públicas, iniciativa popular de leis, entre outros. – Mesmo aqui essa ideia de “povo incapaz” aparece, motivo pelo qual existem tão poucas tribunas livres, com os regimentos vedando manifestações das pessoas presentes e mesmo as comissões de participação – grandes conquistas – só recebem iniciativas de grupos formalmente organizados. Todos os incentivos são para a partidarização, ou seja, para a organização de grupos de atuação cada vez mais formal como pré-requisito para participação efetiva. Isso é um desincentivo para o cidadão desorganizado.
Em segundo lugar, temos o fênomeno das torcidas de futebol, ou fla-flu, encontrando padrões de participação apenas entre os militantes dos diversos partidos que muitas vezes se preocupam mais em defender sua bandeira contra a artilharia inimiga, do que pensar projetos de sociedade que involvam, na sua construção, as diversas visões presentes no mundo social. Os partidos políticos não contribuem para a qualificação da política, aliás só atrapalham. A política enquanto fenômeno de massa torna as campanhas cada vez mais caras, o que exige o despejo do caixa 2 das empresas nas arcas dos partidos, em troca de diversos favorecimentos posteriores. Além disso, o nosso sistema eleitoral proporcional (para o poder legislativo) faz com que comunidades que queiram eleger seus representantes tenham dificuldades em fazê-lo, já que seus votos vão para o cômputo geral das cadeiras do partido, elegendo apenas aqueles candidatos mais famosos. Como é possível incentivar a participação política do cidadão comum num sistema tão excludente?
Onde está a verdade
Esse anacronismo dos partidos está sendo reforçado pelos novos fenômenos da hiperconexão. As pessoas estão tendo possibilidades mais amplas de relacionamento e articulação, em grande parte devido às novas tecnologias das redes digitais. Esses fenômenos estão permitindo uma melhor articulação tanto da política apartidária local quanto dos movimentos que reunem as pessoas em torno de temas de forma desterritorializada. Esses movimentos não querem se meter na briguinha dos partidos e também não tem interesse em ocupar esses espaços de poder na política institucional. Mas ao mesmo tempo reúnem preciosas contribuições que levam pessoas a dedicar boa parte do seu tempo livre na participação política de todo tipo, seja o acompanhamento de sessões legislativas, seja a revitalização de um córrego ou praça no seu bairro. Porque não despartidarizar a política e abrir espaço – poder e responsabilidades – para esses movimentos autônomos que surgem ou atuam na rede? Isso vai acontecer, mesmo porque partidos e governos já estão com sua legitimidade bastante abalada para continuarem firmando o pé. Vão ter que largar o osso, e não adianta enterrá-lo, porque a gente acha!

TEXTO 2:

Nossos Guias, o Brasil precisa de vocês.

Compartilhar
Compartilhar problemas é entendê-los de múltiplos pontos de vistas, entendendo e enxergando de um jeito inalcansável para o simples olho individual. O coletivo enxerga à distância, espaço e temporalmente. Compartilhar os problemas das cidades é o único processo que os torna genuinamente públicos e, por isso, é ao mesmo tempo o compartilhamento das soluções.
A expressão dos pontos de vistas particulares e o espaço para que essas opiniões sejam ouvidas e levadas em conta cria a arquitetura social de participação. O coletivo resolve de forma mais eficiente e cria bases para governança local e regional.
Compartilhar soluções é atuar colaborativamente. É sobretudo admitir que outras comunidades atuarão paralelamente – Não há apenas um jeito, uma resposta possíveis. Esse compartilhamento de problemas e da construção de suas soluções é a reciclagem do espaço público, é sua democratização.
Novovelho
O que realmente queremos dizer quando pensamos em “novas soluções” ou “novas ferramentas”? Não basta que nossas velhas administrações mudem de roupa – que façam “e-156″, que criem sites bonitos ou que invistam em ações diferentes, como divulgar um número de celular do prefeito ou dos secretários. Tudo isso, meus caros, não é inovação. É apenas um jeito melhor de fazer o maisdomesmo.
Nesses espaços, o poder público é um espaço outro, de outros, no qual depositamos nossos problemas e deixamos para alguém – quem, afinal?! – o papel de resolvê-los. Quando o prefeito não quiser ou não puder atender ele não o fará. Quando os administradores não prestarem atenção a determinado problema do 156 ele não será resolvido e ponto final, Um ponto – zero.
Novas ágoras
Essa política de mecanismos formais, que podemos chamar de Política 1.0, segue a mesma linha do que foi a web em seu início: Conteúdos estáticos, administradores centralizados, pouco aproveitamento da inteligência coletiva. Antes de falar da nova política vamos alertar os senhores administradores e políticos presentes na #2010cici que não adianta apenas digitalizar o velho. Vai continuar não funcionando.
E mais: Não adianta “repaginar” as instituições governamentais ou os partidos porque eles, simplesmente, são chatos. Ninguém quer acompanhar uma sessão legislativa ou uma audiência com suas características formalidades antiquadas e procedimentos anacrônicos.
O poder público é chato porque qualquer recorte ou formato do tipo “edital” é sempre, para alguém, inadequado. A diversidade e o pluralismo da sociedade é inatingível para o Estado e a #webcidadania é a expressão desta riqueza. São temas e territórios que se articulam, redes sociais que expressam cada perfil e cada experiência social das pessoas. O mapeamento desta inteligência, ao mesmo tempo em que as ferramentas tornam-se cada vez mais maleáveis, divertidas e leves, unirá inclusão com opinião. É de um novo jeito de opinar que estamos falando. A opinião na web 2.0 será cada vez mais a expressão da experiência social das pessoas – de seus gostos, de seu conhecimento e de sua mobilização. E nesses espaços o poder público vai ter que entrar de mansinho. Ele ainda é aquele amigo chato que ninguém quer convidar. Afinal, como foi dito, ele não consegue sentir nem expressar nossa diversidade de opiniões e, por isso, não pode opinar muito, se não se torna chato outra vez.
Qualquer cidade que quiser sair de Curitiba como inovadora deve levar consigo uma nova forma de conjugar ideias. O nós enxerga melhor e mais longe, o nós é mais legal, inclusivo, e o nós se mobiliza e resolve melhor problemas maiores. #webcidadania #étudonosso!

TEXTO 3:

Como ser coadjuvante na política

Alguns de nós, interessados em mudar o fato de que (est)a democracia representativa tirou dos cidadãos o papel de protagonistas na construção de suas sociedades, nos unimos em torno da #webcidadania.
Este grupo, hoje composto por projetos como o Cidade Democrática, Transparência HackDay, Movimento Voto Consciente, SAC-SP, Vote na Web, Adote um Vereador e outros, está interessado em descobrir formas de propiciar a todos os cidadãos brasileiros uma experiência completa de cidadania por meio da web. Já mapeamos ações estratégicas no campo da mobilização, comunicação, participação, trabalho voluntário, formulação, implementação/ mão-na-massa e conscientização e estamos conversando com estudantes, jovens, agentes críticos de mudança, líderes comunitários e outros grupos com viés de transformação.
Nossa grande vantagem é que trabalhamos de forma colaborativa para fazer o que as pessoas querem que seja feito. Usamos a web 2.0 para “ler” a sociedade, construir relevância e incidir nos pontos específicos em que a vontade das pessoas se alinha em uma mesma direção.
Não temos controle sobre este processo, mas seguimos o seu fluxo porque acreditamos que a inteligência coletiva é mais capaz de construir soluções sustentáveis do que os modelos centralizados que dominaram a política até hoje.
Fico pensando em como aproveitar a grande quantidade de conhecimento acumulado por quem faz política a tempos e envolver os que hoje ainda trabalham em modelos centralizados, estruturas piramidais e hierarquizadas e baseados em preceitos de dominação pelo poder de qualquer forma.
Quando o computador surgiu e começou a ser aplicado na diagramação de jornais, os antigos linotipistas, mestres na arte de diagramar páginas com tipos móveis, moldados em chumbo tornaram-se, de uma hora para outra, obsoletos. Esta classe contava com uma grande simpatia por parte da sociedade. Eram artistas, artesãos, trabalhadores da comunicação e da informação que possibilitavam que todos pudéssemos ter acesso às notícias mais quentes e fresquinhas na hora do café da manhã. O computador mudou tudo isso e a decisão do jornal The New York Times foi aposentar seus linotipistas e continuar pagando seus salários até o fim de suas vidas. Até hoje alguns deles devem viver no meio oeste americano, cortando a grama dos seus jardins e comendo pizza entregue em casa.
A pergunta é: se um dia a web 2.0 tornasse nossos políticos e gestores públicos obsoletos, como o computador fez com os linotipistas, de que forma nossa sociedade estaria disposta a lidar com o legado deixado por quem hoje decide como o nosso dinheiro será investido?
Para evitar o pior, um julgamento dos políticos obsoletos (salvos os bons, claro, que os há, sem dúvida) por uma sociedade forte, consciente e furiosa, sugerimos a reflexão do título: como os nossos políticos podem ir se preparando para desempenhar, com brilho e qualidade, o papel de coadjuvantes na construção de políticas públicas?
Afinal, o que mais restaria a eles além de serem ótimos responsáveis por conduzirem nossa sociedade no sentido que nós queremos?
Se estes artigos parecem irônicos foi mesmo a nossa intenção. Mas, no fundo mesmo, nosso sonho é conduzir este processo de forma colaborativa e aproveitando o melhor do que cada um tem a oferecer. Bom trabalho a todos e boa colaboração!

Ricardo Poppi, Henrique Parra e Rodrigo Bandeira, respectivamente esboçaram os textos e colaborativamente meteram suas colheres nas palavras do outro.

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